O ecossistema brasileiro de startups captou R$ 1,2 bilhão no primeiro semestre de 2025, segundo levantamento divulgado nesta semana pela Associação Brasileira de Startups (ABStartups). O número representa alta de 34% em relação ao mesmo período de 2024 e sinaliza uma recuperação consistente após dois anos de retração provocada pelo aumento das taxas de juros e pela crise de confiança que afetou o setor globalmente.

Foram registradas 187 rodadas de investimento entre janeiro e junho. A maior parte — 61% — foi de rodadas seed e pré-seed, o que indica que o mercado está apostando em empresas em estágio inicial. Rodadas série A e B somaram R$ 680 milhões, concentradas em 23 transações.

Fintechs na liderança

O setor financeiro continua sendo o mais atrativo para investidores. Fintechs captaram R$ 390 milhões no semestre, lideradas por empresas de crédito para pequenas empresas e plataformas de gestão financeira para autônomos. A demanda reprimida por serviços financeiros acessíveis no Brasil ainda representa uma oportunidade significativa, segundo gestores de venture capital ouvidos pela NowBR Digital.

Uma das captações mais expressivas do semestre foi a rodada série B de uma fintech paulistana especializada em crédito para MEIs, que levantou R$ 120 milhões com participação de fundos nacionais e um family office americano. A empresa não autorizou a divulgação do nome antes do anúncio oficial, previsto para a próxima semana.

"O Brasil tem 15 milhões de MEIs e a maioria ainda não tem acesso a crédito com condições razoáveis. Esse mercado não vai acabar tão cedo." — Sócio de fundo de venture capital, em entrevista à NowBR Digital

Agtechs ganham espaço

O segundo setor em captação foi o de tecnologia para o agronegócio. Agtechs somaram R$ 280 milhões no semestre, com destaque para empresas de monitoramento de lavouras por satélite e plataformas de comercialização de insumos. O Brasil, maior exportador agrícola do mundo em vários produtos, tem um mercado natural para esse tipo de solução.

Mato Grosso e Goiás aparecem como polos emergentes de agtechs, ao lado do eixo tradicional São Paulo-Campinas. Algumas empresas do interior do Brasil estão chamando atenção de investidores internacionais, especialmente de fundos focados em sustentabilidade e segurança alimentar.

Desafios persistem

Apesar da recuperação, o ecossistema ainda enfrenta obstáculos. A taxa Selic, mesmo em queda, permanece em patamar elevado, o que torna o custo de capital alto para startups que ainda não geram caixa. Além disso, a reforma tributária em tramitação no Congresso trouxe incerteza sobre o tratamento fiscal de stock options e outros instrumentos comuns em empresas de tecnologia.

Outro desafio é a retenção de talentos. Com a valorização do trabalho remoto e a demanda global por profissionais de tecnologia, muitas startups brasileiras relatam dificuldade em manter engenheiros seniores, que recebem ofertas de empresas americanas e europeias com salários em dólar ou euro.

O segundo semestre deve trazer mais clareza sobre o ritmo de recuperação. A ABStartups projeta que o ano de 2025 pode encerrar com captações totais entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões — o que ainda estaria abaixo do pico de 2021, mas representaria uma retomada sólida.