O dólar comercial encerrou a sexta-feira cotado a R$ 5,43, acumulando alta de 3,2% na semana. A pressão sobre o câmbio tem origem em dois vetores distintos: o ambiente externo, marcado pela incerteza sobre o ritmo de corte de juros nos Estados Unidos, e o cenário doméstico, onde a tramitação da reforma tributária gerou dúvidas sobre o impacto fiscal das mudanças aprovadas.
Operadores de câmbio ouvidos pela NowBR Digital apontam que o movimento desta semana não foi uma fuga de capitais, mas sim um reposicionamento de portfólios. "O investidor estrangeiro não está saindo do Brasil. Ele está aguardando clareza sobre o que vai acontecer com as contas públicas depois da reforma", disse um gestor de fundo que pediu para não ser identificado.
Fechamento semanal — principais indicadores
O papel do Fed na equação
Na quarta-feira, a ata da última reunião do Federal Reserve trouxe um tom mais cauteloso do que o mercado esperava. Membros do comitê de política monetária americano sinalizaram que preferem aguardar mais dados de inflação antes de iniciar o ciclo de cortes de juros. Isso fortaleceu o dólar globalmente, pressionando moedas emergentes, incluindo o real.
O Brasil, no entanto, sofreu mais do que a média dos emergentes. Enquanto o peso mexicano caiu 1,8% e o rand sul-africano recuou 2,1% na semana, o real perdeu 3,2%. A diferença, segundo analistas, reflete a percepção de risco fiscal doméstico que ainda pesa sobre os ativos brasileiros.
"O Brasil tem uma taxa de juros real entre as mais altas do mundo. Isso deveria atrair capital. O fato de o câmbio estar pressionado mesmo assim diz algo sobre como o mercado avalia a trajetória fiscal." — Economista de banco de investimentos, em nota a clientes
Impacto no dia a dia
Para o consumidor brasileiro, a alta do dólar se traduz em pressão sobre preços de produtos importados, combustíveis e itens da cesta básica que dependem de insumos externos. O IPCA de junho, divulgado na semana passada, já mostrou alta de 0,38% — acima das expectativas — com pressão vinda justamente dos preços de energia e alimentos.
A Petrobras, que segue a paridade internacional nos preços dos combustíveis, não anunciou reajuste nesta semana, mas analistas do setor de energia avaliam que a defasagem acumulada já justificaria um ajuste de 4% a 6% na gasolina. A empresa não comentou o assunto.
Perspectivas para a próxima semana
O calendário econômico da semana que vem traz dados importantes. Na terça-feira, o IBGE divulga o resultado do PIB do segundo trimestre. Na quinta, o Banco Central publica a ata do Copom, que pode dar pistas sobre o ritmo de cortes na Selic. O mercado também aguarda a votação do segundo turno da reforma tributária na Câmara.
A maioria dos analistas consultados pela NowBR Digital projeta que o dólar deve se estabilizar entre R$ 5,30 e R$ 5,50 nas próximas semanas, a menos que haja surpresas negativas no front fiscal ou nos dados americanos de emprego, que serão divulgados na sexta-feira.